Hoje é  

Inúmeras famílias vivem, hoje, uma situação cotidiana complicada que comporta inúmeros aspectos, importantes de serem considerados e que afetam diretamente à criança.
A realidade de muitas crianças na Rocinha é estar na rua cheirando cola, dormindo na rua às vezes sem paradeiro certo. Estão na rua muitas vezes por não terem uma estrutura familiar favorável. Muitas têm família, têm pai, têm mãe, mas ao voltarem para casa, vão apanhar do pai embriagado ou encontrar uma mãe que não dá atenção. Muitas vezes a criança é maltratada, espancada, não tem amor, carinho, não tem ninguém que a ouça.
Esta realidade acontece em virtude de não haver planejamento familiar e sim gravidez acidental de 99% dos casos. Esse dado foi encontrado ao longo dos anos de trabalho da Creche Arte Tio João na comunidade através de questionário preenchido pelas mães a cada admissão de seus filhos.
O documento Breve Histórico da Educação Infantil na Rocinha, organizado em 2004 por um núcleo de instituições locais, com o apoio do CIESP (Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a infância) mostra o perfil dessa família:
A família na Rocinha é formada em média por 7 (sete) pessoas entre avós, filhos e netos, oriundos da classe trabalhadora, em sua maioria emigrados do interior do Estado do Rio de Janeiro e dos diferentes estados brasileiros, mais particularmente das regiões norte, nordeste e sudeste.
Uma das principais questões que envolvem os núcleos familiares da comunidade, hoje é o alto índice de gravidez precoce. Com 60% da população constituída por jovens, tem-se aí uma alta projeção no número de crianças que será gerado nos próximos anos.
Este quadro familiar se agrava pela baixa escolaridade e falta de uma formação profissional dos responsáveis pela criança, gerando dificuldade de emprego. Uma das conseqüências mais imediatas é o trabalho infantil. Inúmeras crianças passam a contribuir para renda familiar carregando bolsas de compras nas portas de supermercados, transformando-se em pedintes, sendo levados à prostituição ou sendo cooptados pela criminalidade.
Aqueles responsáveis que conseguem trabalho no mercado informal recebem entre meio e três salários, pagando aluguéis para morar em casas pequenas e insalubres e de difícil acesso.

Importante também considerar que são as mulheres – mães ou avós - que, em sua grande maioria, assumem a responsabilidade pela criação das crianças separadas da figura paterna.
As considerações, apresentadas acima, desencadeiam o desejo e apontam para a necessidade de trabalhar não só a criança mais também a família. A experiência de anos de prática à frente de uma creche, mostra que a estrutura familiar fragilizada (ex. uma família em que a mãe usa droga na frente do filho ou briga o tempo todo na frente da criança; família com um só genitor, ou o pai ou a mãe; família em que o pai trabalha no tráfico; crianças que são criadas só pelos avós ou tia ou tio; crianças não desejadas pela mãe, etc.) muito provavelmente favorecerá um perfil de criança fragilizada.
Tirar a criança da rua, mostrando que ela pode ter uma vida melhor agora, que ela pode se alfabetizar, ter algo a fazer, favorece a construção progressiva de sua auto-estima. O presente pode ser melhor, não somente o futuro.
Na comunidade da Rocinha existe uma enorme quantidade de pessoas com muita criatividade. De repente, embaixo dessas pontes existe um grande pintor, um grande artista, um grande jogador de futebol, um poeta, um escritor. Potencialidades variadas existem, o brasileiro em si é criativo por natureza. As crianças que ficam na rua com certeza têm dentro de si um potencial que não foi visto por ninguém, não foi aproveitado. Descobrir o potencial dessas crianças apoiá-las para que se desenvolvam, dar suporte a suas famílias é o caminho a ser trilhado passo a passo.

O objetivo principal é reverter o quadro da vida das crianças que estão expostas à criminalidade, possibilitando uma melhor qualidade de vida através da educação, conscientizando a família da importância do processo educacional como um caminho de oportunidades, minimizando a perambulação e preenchendo o tempo ocioso. Focar o cidadão, destacando o direito de opinião, o poder de escolha, favorecendo a criação de uma sociedade mais forte, digna e mais justa.

 
©CRECHE ARTE TIO JOÃO - Todos os Direitos Reservados